17/06/2007

Desespero !!!

Onde estão as rosas, as papoilas, a flor de Jacarandá?
Onde estão os meninos, as bolas, os skates, as bicicletas, os chilreios?
Onde estão os namorados, as cores, os ritmos, os gritos, as gargalhadas?
Onde está o sol? E os 23º à sombra?
E a brisa ao fim da tarde?
E o perfume das glicínias?
Alguém me sabe dizer por onde anda a Primavera?

15/05/2007

Famílias alternativas ???

A minha vizinha da frente, viúva há tantos anos que já nem se lembra muito bem há quantos- e para aqui também não é grave a falta de clareza dos números- vive com um filho adulto, "incapaz", por inércia há tantos anos acumulada que não é possível imaginar solução para tão grande problema- o que para aqui também não é relevante (por enquanto)- e com um cágado minúsculo do qual- aqui sim é importante afirmar- confirmo a existência, pelos monólogos , ora ternos, ora zangados que a minha vizinha lhe dispara, quando se põe à janela com o bicho, imaginam porquê? Para o secar após o banho.
Rotinas são necessárias. Que o diga a senhora minha vizinha, cuja idade lhe ensinou que com rotinas se podem salvar dias de vazios e desperdicíos de tempo... Não haveria o bicho de tomar banho todas as semanas? Pois claro que sim. De sabonete, na carcaça, por baixo e por cima, nas patitas, que de barriga para cima, ficam a dar a dar, não se sabe se de prazer, de pânico ou de automatismo... Depois limpa-se muito bem, puxa-se o lustrinho, e vai-se para a janela apanhar sol, ou apenas uma "aragesita".
-Ói quida, está asseadinha, está? Coisinha linda! Está a gostar, está? Cheirosinha, hein? Prá semana há mais! Vamos lá apanhar um solinho! Quem é amigo, quem é?
Quaisquer outras "conversas" mais íntimas havidas entre a minha vizinha e o seu cágado não serão aqui reproduzidas. A privacidade de cada um, mesmo que a descoberto de uma janela, tem limites.
A senhora, há dois meses, caíu. Não sabe como fez aquilo. Tropeçou numa pedra. Estendeu-se ao comprido. No meio da rua. "Que vergonha!Nem tive habilidade para me segurar com as mãos"-dizia. Resultado: Braço direito ao peito. Engessado!
Quando me apercebi do incidente, já tinham passado dois dias. Era fim-de-semana. Perguntei, de janela para janela, se precisava de alguma coisa. Se queria que lhe fizesse o comer, que lhe trouxesse alguma coisa da rua, talvez uma ajuda na limpeza da casa, quem sabe, um lenço mais largo para trazer o braço ao peito... "que não, obrigadinha. Eu cá me vou arranjando"-respondeu. E acrescentou quase num sumisso de voz: "Só se me pudesse ajudar a dar o banho ao meu cágadozinho, coitadinho, que tenho medo de o deixar cair, como não tenho sensibilidade nos dedos..."

Disseram-me há pouco que se comemorava hoje o dia internacional da família!!!

11/03/2007

Olhares

O céu mesmo azul e o sol mesmo quente deram-me vontade de ir para a esplanada, e aquietar-me por lá sem hora marcada para partir.
A melhor forma que encontro de apreciar a praça, o café, o sol e o azul do céu é fazer de conta que sou mesmo turista. Que estou ali pela primeira vez, que não vou mais voltar.
O traçado arquitectónico tem sempre algo novo para descobrir, as sombras nunca são iguais, as pessoas que circulam oferecem instantes únicos, as crianças gritam, atrás dos pombos, nos mais diversos tons e até os cães vadios, que dormem no empedrado mais batido pelo sol, suscitam sensações de afabilidade dentro de mim.
Amanhã, ou noutro dia qualquer, visitarei novamente aquela praça pela primeira vez e poderei saborear o dia como se fosse o último sítio a visitar antes de partir.

04/03/2007

Travessias

Tanto que eu gosto de dançar.... e há tanto tempo que não o faço! Nem mesmo em casa, onde, normalmente, dou largas à imaginação e me solto sem quaisquer constrangimentos. Parece que o corpo se resguarda, naturalmente, de determinados ritmos, rituais, gostos. E aos poucos se habitua a viver assim, quieto. Parece que há uma energia que se esconde, em certas alturas, sem qualquer razão aparente, mas que é necessário respeitar. Assim o sinto.

Uma dor no cotovelo esquerdo que me acompanha há meses, parece ter vindo para ficar. Também devagarinho, o corpo se vai habituando à falta de força e é o braço direito que acorre voluntário a pegar nos objectos. Sem pensar.

Por vezes acordo com torcicolos que se formaram durante a noite. Sem explicação. E é quando olho o mundo do alto da minha inflexibilidade que me submeto, de vez, à evidência do imprevisível. Sem resistência.

O difícil mesmo é atravessar a mudança. Chegar à outra margem. Sem perder o equilíbrio.